Entrevista concedida por Carlos Marcondes a Paulo Faria em 2011 Imprimir

PAULO FARIA – Como é que você foi lá para a escola? Porque até então a escola pra mim, o imaginário que eu tinha dela, eu descobrir que tinham pessoas de fora como Rodrigo Santiago. Porque pra mim era a Maria Silva Nunes, como é que ela fez isso em Belém, com quais pessoas?

CARLOS MARCONDES – A Maria Silva fundou um grupo de teatro Norte Teatro Escola do Pará. Era um grupo amador participava e fizeram espetáculos em Belém. Eu conheci o grupo da Maria Silva em Santos, num festival de Estudantes. Eles levaram Édipo Rei. E tinha um ator fabuloso chamado Daniel Carvalho, que era ótimo ator, foi um sucesso.

E o Carlos Miranda que fazia o Édipo, depois também se desliga de tudo e vem pra Rio de Janeiro, e acaba finalmente como diretor do Serviço Nacional de Teatro. Mas então esse grupo da Maria Silva batalhou por muito tempo, e a Maria Silva teve a idéia junto com o Bené (Benedito Nunes), os tiveram a idéia de tentar criar na escola, na universidade um curso de formação de atores.  Mas acharam melhor fazer uma tentativa piloto. Então eles chamaram Amiradati que nessa época morava em São Paulo, que tinha já feito muita coisa aqui. E durante seis, oito meses, o Amir ficou em Belém, trabalhando com as pessoas que apareciam, e vê como é que a coisa poderia caminhar, e perceberam realmente que dava. Devido ao interesse dos alunos e tudo mais, perceberam que realmente dava pra apresentar esse projeto de criação do Curso de Formação de Ator do serviço de teatro Universidade Federal do Pará. O reitor que era o doutor Silveira, era uma pessoa extremamente receptiva, não só a teatro, como também a música. Ele importou da Inglaterra um instrumental completo de uma orquestra sinfônica.

 

PAULO FARIA – Como é o nome dele?

CARLOS MARCONDES – Qual era o primeiro nome do doutor Silveira? Meu Deus! Silveira! Ele era médico, a formação dele era medicina. E a escola. Ficamos num prédio muito precário, numa antiga residência, um sobradinho germinado, porém a gente tinha toda a cobertura para fazer espetáculos, apresentações. Então uma das primeiras coisas que a gente fez em Belém, foi junto com a escola de música, com a direção musical do Nivaldo. Fizemos a encenação de uma via sacra no altar da catedral de Belém. Eu disse gente será que não vão nos apedrejar? E então foi muito bonito! Foi Manta de pavelege, com duas solistas. A escola de teatro estava fazendo toda a movimentação.

PAULO FARIA – A catedral é na Basílica de Nazaré?

CARLOS MARCONDES – Não, não! A catedral na cidade velha, a igreja da Sé, em frente a Santo Alexandre, e se não me engano, a gente fez no Santo Alexandre e na catedral. Mas foi um grande sucesso. Então de São Paulo, foi a Hiolanda Madei, para fazer expressão corporal. A Hiolanda a formação dela é toda na área de dança. Ela foi aluna muitos anos da Ian Carudski, e da dona Maria Dushenes. Então a Hiolanda também largou tudo o que fazia, ela trabalhava na seção de arte da biblioteca Mario de Andrade. Então fomos eu, recém formado, Hiolanda e Amir.

PAULO FARIA – E porque que você foi? Onde é que você chega nessa história?

CARLOS MARCONDES – Eu fiquei muito amigo da Maria silva, do Bené, mas principalmente da irmã da Maria Silva, a Angelita Silva. Que era uma pessoa fantástica. A Angelita foi a primeira mulher a se formar em engenharia no Pará. E a Angelita algum tempo depois de formada, resolveu construir uma casa na travessa da estrela desenhada por ela e foi morar sozinha. E pra Belém isso foi um choque, a filha do desembargador Cursino Silva. E a relação dela com a Maria Silva era muito grande. A diferença de idade delas era grande. E então Bené e a Maria silva recém casados foram morar com Angelita, nessa casa que existe até hoje. Então fomos os três de São Paulo, Hiolanda, Amir e eu (Carlos Marcondes). E ficamos morando na Estrela durante quase um ano, usando e abusando do direito de hospedagem. Hiolanda, Amir e eu estávamos muito inseguros, porque não sabíamos se voltaríamos à Belém, ou se queríamos voltar à Belém. Mas foi uma experiência muito gratificante. Não. Vamos voltar para Belém, mas vamos morar em outro lugar. Porque já não tem mais cabimento a gente ficar aqui.

PAULO FARIA – Isso no primeiro ano?

CARLOS MARCONDES – No primeiro ano. Então no primeiro ano a gente fez esse espetáculo. Para mim, para todo mundo, a entrega dos alunos foi muito gratificante. A escola funcionava a noite. Todo mundo trabalhava, quase todo mundo trabalhava o dia inteiro. Uns poucos estudavam, muito poucos estudavam. E eram assim, pessoas de uma classe social muito caracterizada. Aquela garotada de classe média, nem pensar em chegar perto da escola, mas nem pensar.

PAULO FARIA – Até hoje?

CARLOS MARCONDES – Não. Porque a escola naquele contexto de Belém, era âmbito de bichas, comunistas e de putas. Então sabe, não! Mas eram de uma dedicação! Todos! Mesmo, sabe, independentemente de ter talento ou de não ter talento. A vontade que eles manifestavam a entrega. Isso era uma coisa que deixava a gente muito, muito empolgado. Então depois dessa montagem, que foi em 1963, a gente fez o Festival Shakespeare. Cenas várias, cenas de várias peças. E aí a gente foi fazer lá na Assembléia Paraense.

PAULO FARIA – Na Avenida Presidente Vargas?

CARLOS MARCONDES – Sim. Então convidamos uma cenógrafa, também recém formada pela EAD Maria Rita Bordão. Maria Rita foi lá fazer a cenografia e os figurinos. E foi um grande sucesso. E tudo bancado integralmente pela reitoria. Depois tinha um prédio muito lindo ali perto de São Braz, onde foi a primeira sede da escola de arquitetura, da faculdade de arquitetura. Então a gente fez ao ar livre pela segunda vez no Brasil, uma peça do ator americano baladodésimo com quem também eu dividi o meu ovo.

PAULO FARIA – Albi.

CARLOS MARCONDES – Albi. Fizemos o Albi. Que já tinha sido feito aqui em São Paulo, na EAD. Mas Belém fizemos com esse menino que era o nosso grande ator, que é o Renunscio do qual eu já falei.

PAULO FARIA – Ele veio pra cá? E que é o nome de um teatro na Onésima?

CARLOS MARCONDES – Isso. Depois nós vamos falar mais no Renunscio. Então o Renunscio e um outro ator. O renusncio esplêndido, uma coisa assim, muito, muito boa. E o Amir também, ainda naquele ano, fez uma adaptação teatral de um coelho nato, muito engraçado, muito interessante, muito bom. Um negócio incrível. Então isso foi todo o ano de 1963. Fizemos Brecht também, mas já a repressão roendo, comendo solta. Na metade de 1965, eu fui para os Estados Unidos com bolsa da FUNVAST, para Escola de Drama da Universidade de Ieel.

PAULO FARIA – Metade de 1965? Julho, agosto?

CARLOS MARCONDES – É. Eu fiquei um ano letivo nos Estados Unidos. Eu fiquei de a metade de 1965 a metade de 1966. Então nesse meio tempo o Amir foi embora definitivamente. A Hiolanda também. Então foi me substituir o Paulo Vilaça, ator. E depois do Paulo, o Rodrigo foi substituir o Amir.

PAULO FARIA – Então você conviveu com o Rodrigo Santiago?

CARLOS MARCONDES – É o Rodrigo foi substituir o Almir. E o Paulo Vilaça foi me substituir.

PAULO FARIA – Entendi.

CARLOS MARCONDES – Depois chegou o Marcos que substituiu a Hiolanda. Então nesse meio tempo toda a uva foi debandada. Essa substituições gente que foi, gente que ficava. A Maria Silva se retirou da direção da escola, mas acho que continuava dando aula. Nesse meio tempo, também, todo mundo dava aula. O Daniel, Maria e o professor Francisco Mendes davam aula. Você conheceu o Chico Mendes?

PAULO FARIA - Não.

CARLOS MARCONDES - Francisco de Paula Mendes, que era uma lenda em Belém. Era professor de língua portuguesa nas principais escolas. Tinha um português absolutamente castiço. Era uma figura. Figuraça. Ele ensinava português na escola de teatro. Na minha volta a Belém, então a coisa se apresentava assim: Rodrigo estava lá, dirigia, o Marcos expressão corporal. Chico Mendes continuava dando aula, Maria Silva também. E aquela estrutura. A gente fez um grande espetáculo. Fizemos uma tragédia grega no Teatro da Paz. Que foi um negócio!

PAULO FARIA – Eu lembro disso até hoje. Foi uma lenda essa montagem. Foi o que? Um Édipo?

CARLOS MARCONDES – Não, não. Daqui a pouco eu me lembro.

PAULO FARIA - Foi o Eurípedes?

CARLOS MARCONDES – Foi Eurípedes. Mas olha um espetáculo! A cenografia! Aí sim, trouxemos pra cá também uma cenógrafa, amiga nossa e figurinista chamada Sara Felix. A Sara pega aquele palco, põe assim oito colunas desse diâmetro. O palco inteiramente forrado de juta. As colunas inteiramente forradas de juta. A gente foi no Ver-o-peso. Tinha um lugar que só vendia couro e pele de bicho. Então os figurinos eram assim: umas sedas maravilhosas, os adereços de metal misturados com couro de cobra, pele de onça. Um negócio assim, fantástico, lindíssimo.

PAULO FARIA - Isso em 1963?

CARLOS MARCONDES - O coro foi coreografado pelo Marcos. Foi assim o negócio. Aconteceu uma coisa muito engraçada. Porque todos os espetáculo da Escola de Teatro, não se cobrava absolutamente nada. Então a gente anunciava, olha ou telefonem para Escola de Teatro, ou retirem na bilheteria. Aí um dia uma senhora de alta sociedade telefona para a Escola de Teatro e diz assim: Não eu quero uma frisa tuble. Mas minha senhora, nós não reservamos assim é de quem chegar. Aí a senhora: então tá, muito obrigada. Não precisa por que a frisa tooble é ocupada pela minha família desde 1910. (risadas). Mas enfim. Então o repertório era realmente muito eclético. A gente fazia Aquali Neto, Albi, Shakespeare e tragédia grega.

PAULO FARIA – Mas isso em 1963. Porque você não volta depois?

CARLOS MARCONDES – Volto. Quando eu volto à Belém. Aí o Marcos resolve também com a Escola de Música, fazer um oratório de Monte Verte : “Lágrimas do amante do sepulcro da amada”. O cenário foi com Sara Félix e foi muito linda a história. Foi também no Teatro da Paz, o espetáculo lindíssimo.

PAULO FARIA – Isso já em 1966. Você passa esse ano de 1965 à 1966?

CARLOS MARCONDES - Eu volto no finalzinho de 1966.

PAULO FARIA – E vem direto para Belém e não para São Paulo?

CARLOS MARCONDES – Direto para Belém.

PAULO FARIA – E você sai de Belém para os Estados Unidos?

CARLOS MARCONDES – Sim. De Belém para os Estados Unidos. Exatamente. Aí eu volto e a gente faz essa “Lágrimas do amante no sepulcro da amada”. Eu fico até o final de 1967 em Belém. É aí digo: bom tenho que resolver da minha vida o que eu quero. Ou fico em Belém o resto da minha vida ou eu vou à São Paulo. Porque se eu me formei como ator, eu tenho que encarar essa. Não adianta mais querer fugir.

PAULO FARIA – Você se formou e veio para cá (São Paulo)? A sua carreira ficou em Belém?

CARLOS MARCONDES – Então quando a gente veio embora a estrutura era essa: Maria Silva dirigia a escola e ensinava. O Bené ensinava. O Chico Mendes estava lá ensinado também. E foi assim. E aí gradualmente eu fui perdendo o contato com a escola. Fui fazer Stin Ergomont. Mas depois voltei a Belém por outros motivos. Cismei realmente em fazer doutorado tendo isso como tema. Voltei à Belém por causa disso.

PAULO FARIA – Você........... Pra pesquisar?

CARLOS MARCONDES – Sim voltei pra fazer pesquisa de campo. Essa coisa toda. Depois de tudo o Bené se empenhou muito. Eu devo muito à ele. O Bené conseguiu que a secretaria se interessasse em editar isso aí.

PAULO FARIA – e dentro desse ciclo Preamar não é? Eu percebo que esse livro aqui nesse lugar ávido, que estava essa gestão de Jesus. Foi a primeira eu acho, em que se retomou, em que se inaugurava aquele prédio que ficou anos parado.

CARLOS MARCONDES – Lá na Gentil?

PAULO FARIA – Lá na Gentil, no Tancredo Neves.

CARLOS MARCOMENDES – Mas não estão mais lá.

PAULO FARIA – Ah é saiu de lá. A secretaria saiu de lá, mas a fundação ficou ali.

CARLOS MARCONDES – Sim!

PAULO FARIA – E aí foi quando eu tive a Preamar. Aí eu vim um pouco. Você chegou em Belém e eu estava vindo pra cá (São Paulo).

CARLOS MARCONDES – E aí naquele nobre Teatro de repente cordões de pássaros. E não tinha nada a ver. Por que antes era um teatrinho muito precário.

PAULO FARIA – Ali na Magalhães Barata, no São Cristovão.

CARLOS MARCONDES – É. Em frente ao Goeldi. Um lugar assim,acústico, sem nada, mas era tão simpático, tão legal.

PAULO FARIA – Eu cheguei a ver ali no Waldemar Henrique. A gente estava na época fazendo a “Viúva Costa”, em 1987. Essa gestão. Acho que é de 1986 a do Jesus. E vai até 1990. Mas antes disso você voltou em 1973. Você esteve em 1966 e volta em 1973 para um projeto?

CARLOS MARCONDES – Isso. Exatamente. Depois eu volto em 90 por causa disso.

PAULO FARIA – E qual foi o projeto exatamente em 1973 que você falou?

CARLOS MARCONDES – Foi o Egmont.

PAULO FARIA – E vai fazer dentro da escola ou da universidade?

CARLOS MARCONDES – Na escola. Mas a escola sempre foi da universidade.

PAULO FARIA – Exato!

CARLOS MARCONDES – Então isso foi feito no Teatro da Paz com direção do Marcos, em 1973. É a minha ida mais recente à Belém foi para dar um curso sobre técnicas de pesquisa em artes.

PAULO FARIA – Isso foi agora recente?

CARLOS MARCONDES – Não. Isso foi há quatro anos atrás. E agora parece que eu vou á Belém. Participar de uma banca de uma menina que está defendendo o doutorado sobre o cordão de pássaros. Eu fui da banca de qualificação dela em mestrado. Agora ela quer que eu participe da banca de doutorado.

PAULO FARIA – Ah que legal. Eu diria que você tem que estar no próximo Seminário de Dramaturgia. O primeiro foi no ano passado, em que foi o Sérgio de Carvalho do Latão. E agora são dois autores um do Pará e o outro do Amazonas. Por isso eu achei interessante de levar sobre essa questão do folhetim e de como eu percebo que ele ainda é presente em Belém e como não se olha para isso, como uma possibilidade autêntica de uma dramaturgia que eu queria tocar. Porque quando eu penso agora já nesse universo de Alfredo Mesquita, vejo o alicerce da escola. O Dr. Alfredo trazendo toda vanguarda do mundo para cá, todos os principais autores são montados ali. De alguma forma ele cita essas montagens. Pelo que você descreve isso também de certa forma quando vocês vão para lá é um pouco uma extensão desse embrião, desse início da EAD aqui. Belém é possível dizer que ela surge como uma pegada, muito da EAD. Com um olhar, a mesma idéia de trazer a nova dramaturgia clássica, mas a nova dramaturgia Bludual a que vocês montaram lá. E se tinha um pouco disso, se tinha quando vocês foram pra lá fundar a escola, de levar um pouco da experiência de vocês como alunos. O que tinha na escola. O que formou vocês?

CARLOS MARCONDES – Não. Na verdade a única pessoa que tinha uma ligação com uma escola era eu. Por que o Amir já tinha outra formação.

PAULO FARIA – E o Santiago também se formou na EAD?

CARLOS MARCONDES – Rodrigo e o Paulo e eu e as cenógrafas Maria Rita Bordão fez o curso de cenografia na escola. Sara Felix fez o curso de cenografia na escola. A gente procurava levar, eu procurava indicar pessoas da EAD talentosas, que eu sabia que eram talentosas e que queriam também. O Rodrigo, por exemplo, era uma pessoa muito aberto. Rodrigo de repente foi ser locutor da rádio Cairo.

PAULO FARIA – Lá?

CARLOS MARCONDES – Não. O Rodrigo depois de Belém foi pro Egito. Ele ficou um ano no Egito.

PAULO FARIA – O Rodrigo é sempre surpreendente!

CARLOS MARCONDES – Depois ele foi para Londres. Trabalhou na BBC de Londres. O Paulo havia conhecido Maria Silva quando eles estudaram em Paris e ela também. Eles se conheceram em Paris e o Paulo tinha uma história incrível. O Paulo era professor de literatura no Maquenze. E ele deu para os alunos dele. Pra depois comentarem, um livro desse autor mineiro.

PAULO FARIA – Autor de teatro?

CARLOS MARCONDES – Não. Um romance; Encontro da Casa, não.

PAULO FARIA – O Pião?

CARLOS MARCONDES – Não. Algo mais contemporâneo. E aí o Paulo resolveu, montou um grupo de teatro amador com os alunos dele e me chamou pra ajudar a escolher o elenco. Ele montou Martins Pena. Foi aí que eu conheci o Paulo. Dentro do Maquenze.

PAULO FARIA – Você já fazia a EAD?

CARLOS MARCONDES – Não, não, ele não fazia nada. Eu já fazia a EAD.

PAULO MARCONDES – Foi paralelo a EAD?

CARLOS MARCONDES – Exatamente. E o Paulo foi convidado depois de dar esses textos para os alunos lerem e discutirem. Ele foi convidado a se retirar do Maquenze. Porque acharam aquele texto. Não disseram claramente que era imoral, mas incompatível talvez com a ética protestante do Maquenze.ntão o Paulo foi fazer a EAD e tudo mais enfim. Mas havia um pouco esse clima de AED. Sabe de preparação técnica, de gente que se conhecia e que já tinha, sei lá, uma convivência e uma formação técnica. A escola era um milagre. Os professores não ganhavam nada. O Alfredo subvencionava uma sopa para nós todos. Porque todo mundo trabalhava e chegava desvairado de fome.

PAULO FARIA – Era um trabalho voluntário, então?

CARLOS MARCONDES – A sopa do Dr. Alfredo.

PAULO FARIA – Então a sopa é famosa.

CARLOS MARCONDES – A sopa do Dr. Alfredo. E depois aquela cozinha da maranhão era muito pequena. Então a gente foi para o Museu de Arte de Ofícios onde o Japina Kotaca. Então a gente ocupava toda a parte de baixo e uma parte do primeiro andar. Salas de aula, administração.

PAULO FARIA – Devia ser maravilhoso.

CARLOS MARCONDES – Salas de aula e aquele pátio interno maravilhoso.

PAULO FARIA – Que hoje é fechado.

CARLOS MARCONDES – E a escola tinha uma coisa muito interessante, você tinha que fazer os espetáculos de fim de ano e o Alfredo conseguia que os espetáculos fossem levados para fora da escola. O teatro da Maria de La Costa no Teatro Taíbe que é o teatro da colônia Kobaca, no teatro TBC. Então a escola circulava, se projetava um pouco. Até que finalmente aquilo ficou um ônibus muito grande na vida de todo mundo. E a escola acabou sendo incorporada a USP. Aí começa uma outra fase. Nadia Befeld se afasta.

PAULO FARIA – Isso no final de 1960 ou 1979 já?

CARLOS MARCONDES – Não. Eu acho que é final de 60.

PAULO FARIA – É acho que 68, 67. Acho qua a primeira turma da USP. Acho que é 68. Que é a turma da Bri. Ela se forma em 68.

PAULO FARIA – Mas onde é que você conhece a Maria Silva e o Benê? É em São Paulo então?

CARLOS MARCONDES – Neste festival que eu vi o espetáculo delas. Fiquei entusiasmadíssimo.

PAULO FARIA – E o festival foi aonde?

CARLOS MARCONDES – Foi em Santos. Aqueles festivais de Pascoal Casmano. Naqueles festivais de estudantes. E então a escola nasce  justamente dessa vontade da Maria Silva e do Bené que dá a ela o apoio total. De realmente criar alguma coisa em Belém, dentro do contexto da Universidade. Uma escola como talvez seja até hoje. Eu não sei, acho que de nível médio.

PAULO FARIA – Como aqui não é?

CARLOS MARCONDES – É. Hoje o que existe na USP é o curso universitário, com vestibular e tudo na parte da manhã e a escola a noite numa outra situação compartilhando os dois, o mesmo espaço.

PAULO FARIA – Eu já conheci assim em 1990 quando eu morava na CRUSPE. Não era esse prédio novo, era ainda o antigo, dentro lá daquele menor. Mas era essa formação. E quando vocês chegam lá, então tinha muito essa pegada clássica. Clássica, porque também tinha os autores contemporâneos, Para trazer uma formação intelectual, digamos assim. De trazer autores a historia do teatro. Dar fundamentos, enfim como todas as escolas. E aí você fala aqui dos pássaros.

CARLOS MARCONDES – Espera um pouco. Eu dirigi também dois espetáculos lá. Eu trabalhava como ator também. Sempre digo que a possibilidade estava no palco também. E aí eu dirigi lá uma peça do Roberto Freiras chamada “Quarto de empregada”.

PAULO FARIA – Que depois teve uma montagem famosa com a Margarida Refskalefski e com a Zélia Amados, que eu lembro que eu era muito criança. Isso deveria ser 74 ou 75. Que é onde surge a primeira peça do Cena Aberta do Luiz Otávio Barata dentro do palco do teatro da Paz.

CARLOS MARCONDES – Eu não sabia que a Zélia fez isso.

PAULO FARIA – É histórico. É o grande personagem da Zélia, “O quarto da empregada”.

CARLOS MARCONDES – E remontei um espetáculo que eu havia dirigido na EAD com a Sara Amaral. Um conto do Mário de Andrade chamado “Nésea Filgueira sua criada”.

PAULO FARIA – Acho que eu vi.

CARLOS MARCONDES – Então eu dirigi. Era um espetáculo.

PAULO FARIA – E a adaptação era sua?

CARLOS MARCONDES – Era um espetáculo com...

PAULO FARIA – Com intervalo e dois juntos.

CARLOS MARCONDES – Com dois textos.

PAULO FARIA – É tipo que vai fazer, são três peças dentro de uma do Alfredo.

CARLOS MARCONDES – Certo. E depois do renuncio que foi o aluno mais talentoso que nos tínhamos, tinha o quarto ano do primário. Gente era de uma intuição. Ele fazia Shakespeare intuitivo, lindamente! Ele deu um show em Sara Palha. Ah não, esquece o que eu disse. Eu não dirigi Mario de Andrade, eu dirigi Sara Palha de Guimarães Rosa. A gente fez “Sara Palha” a primeira vez em São Paulo em 1957. Um grupinho amador de amigos. A gente fez um espetáculo. Ouve um festival de teatro na televisão e a gente se apresentou como Sara Palha. Quem organizou esse festival foi o Dr. Vicilio e o assistente dele foi Ademar Guela.

PAULO FARIA – Isso em que ano?

CALOS MARCONDES – 1956, 1957.

PAULO FARIA – Então você fez teatro antes de fazer a escola?

CARLOS MARCONDES – Amador. Teatro amador. Eu me formei pela escola de sociologia e política. Fizemos esse espetáculo. Aí o Antonio Silva queria contratar a gente para a televisão. Eu e o outro ator dissemos, não é a nossa, de jeito nenhum. Os dois estudavam na Escola de Sociologia e Política. Eu fui me encantando com essa historia toda de teatro. E aí fiz mais dois espetáculos no teatro amador. E no dia que eu recebi meu diploma de Cientista Social, naquele prédio onde você estudou, na praça. Em frente tinha um teatrão Leopoldo Froz, foi demolido. Então terminou a cerimônia e eu fui para o ensaio geral e nunca mais quis saber de ciências sociais. Logo depois, um ano depois entrei na EAD.

PAULO FARIA – Mas quando vocês chegam lá, por exemplo, tem a questão de que a gente vai falar da dramaturgia. Primeiro o que eu fiquei pensando. Essa coisa que pra mim ficou muito clara sobre a tradição da quadra Nazarena e do auge do teatro de revista como uma influencia muito grande em Belém até hoje. O Verde Ver-o-peso é pra mim influencia total. Uma tradução, quase quarenta anos depois. Ele é da década de 40 e lançou no inicio de 80. Quando ele começa a fazer verde ver-o-peso, God Bye Pororoca, foi boto sinhá e por aí vai, que é teatro de revista  não é? Com uma estrutura de teatro de revista como uma estrutura muito melodramática de cenas cômicas com cenas dramáticas, E eu sempre ficava pensando de onde é que surge, E na época que vocês vão para lá, se havia algum dramaturgo de fato de teatro, alguém, alguma idéia sobre isso ou não?

CARLOS MARCONDES – Não. Acho que não. A única pessoa que parece que mexeu um pouco que publicava peças, que escrevia para teatro era o Nazareno Tourinho.

PAULO FARIA – Sim. Que eu cheguei como ator a montar uma peça dele. A casa dele eu levei um susto! Que é uma casa centro espírita Nazareno Nazareno Tourinho, ele é vivo ainda. E quando eu passei e vi a casa dele. Escrito aí eu falei, não é? Não, ele está lá e tem um centro espírita na casa dele. E eu trabalhei com ele no banco. Ele foi da acessória de imprensa quando eu trabalhei lá. Então ele tem uma casa espírita que é ao lado da casa da Wlad, que é na Campos Sales com a Riachuelo.

CARLOS MARCONDES – Nossa. Quer dizer que é uma coisa meio assim: a modéstia espírita, o desprendimento espírita. De repente a casa Espírita do Nazareno Tourinho.

PAULO FARIA – Está o nome dele. Parece que ele está morto. Quer ser encarnado não? Mostra o envolvimento material dele.

CARLOS MARCONDES – olha só. Mas realmente acho que não existia nada. Teatro era aquela coisa. O grande acontecimento foi Toni Carreiro chegar lá. Não havia nada.

PAULO FARIA – E mesmo essa tradição que tinha do Tavernard que tinha o seu teatro de revista. Não ficou nenhum autor desse período. Teve coisa que foi para a rádio novela, os caras escreviam. Mas ninguém tinha ali a nomeação de ser dramaturgo. Nem você se identificava com nenhum dramaturgo?

CARLOS MARCONDES – Talvez fosse interessante. Você chegou a conhecer de nome a Maria Helena Coelho?

PAULO FARIA – Não tenho memória agora.

CARLOS MARCONDES – A Maria Coelho sempre trabalhou com a Maria Silva nesse grupo de teatro amador. Ela poder contar muito para você sobre esse trabalho da Maria Silva e desse grupo de teatro o Norte Teatro Escola do Pará. Mas depois ela e Maria Silva fizeram muito televisão em Belém. Quando a televisão chega à Belém, ela e Maria Silva, direto, batalharam muito na televisão. E ela vai poder dar um depoimento bem bacana. Ela nesse momento vai estar em Belém esses dias.

PAULO FARIA - Ela não mora em Belém?

CARLOS MARCONDES – Não. Ela veio para cá. Formou-se em literatura em Belém, quando ela veio para São Paulo formou-se em psicologia.

PAULO FARIA – E ela mora há cinqüenta anos em São Paulo?

CAROS MARCONDES – Então a história da família dela é muito interessante. O avô dela era governador do Pará. E aparece em Belém uma Companhia Espanhola de Opereta.

PAULO FARIA – Em que ano isso?

CARLOS MARCONDES – Isso lá por 1915. E a cantora principal era um deslumbramento, um talento de beleza, lindíssima, maravilhosa. E o governador baixinho, meio caboclinho, se apaixona por ela de uma maneira absurda. E ela se vai. Foi seguir a carreira dela. E ele cruza os mares e vai pedir ela em casamento, e ela aceita. E volta à Belém e acaba a carreira dela.

PAULO FARIA – Então a mulher que casa com ele é a avó da Maria Helena?

CARLOS MARCONDES – A avó da Maria Helena. Então tiveram três filhos. O pai da Maria Helena. Umas das filhas foi cantora lírica, maravilhosa, mas nunca seguiu profissionalmente. Tem um cd gravado dela lá pela SECULT, da Ana Maria Coelho, fantástica cantora.  E a outra filha foi morar no Rio de Janeiro. Mas Maria Helena mora aqui. Acho que ela vai gostar de conversar com você. Ela pode dar uns bons depoimentos sobre esse precursor de teatro . o que eles fizeram realmente.

PAULO FARIA – E ela que junto lá idealizou?

CARLOS MARCONDES – É. E Maria Silva foi a primeira pessoa no Brasil a montar “Morte e Vida Severina”. Que foi um grande sucesso.

PAULO FARIA – Com o menino que você disse?

CARLOS MARCONDES – Com Carlos Miranda. Foi um grande sucesso. Mais até que Édipo Rei. Então a Maria Silva foi a primeira pessoa. Então a Gabi conheceu o futuro marido na EAD. O Solano irmão da Julieta. Sim o espetáculo da Gabi vai voltar.

PAULO FARIA – Tá em cartaz.

CARLOS MARCONDES – Eles voltar.

PAULO FARIA – Ah é mesmo.

CARLOS MARCONDES – Eu vou telefonar para Maria Helena e Renunscio e anunciar o seu contato.

PAULO FARIA – Pode por favor. Que dia é hoje?

 

CARLOS MARCONDES - hoje é dia 28.

 

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