Crítica da peça Nó de 4 Pernas de Nazareno Tourinho Imprimir

 


Nó de 4 pernas,
um espetáculo imperdível

Por Joel Cardoso

Em, 6 de setembro de 2012, vinda de um breve período de encenação no Teatro Estação Gasômetro, que ficou, na sequência, em curtíssima temporada no Teatro Cláudio Barradas, a convite de Bene Martins, diretora adjunta do ICA, amiga de priscas eras, companheira de jornadas acadêmicas e de vida, fui assistir à peça "Nó de 4 pernas". Tive a grata satisfação, ainda, de estar na companhia de Luiz Guilherme e Dani Pimentel, amigos diletos.

 

 

A peça, baseada em uma das mais premiadas obras do veterano Nazareno Tourinho, comemorando os seus 50 anos de publicação, na realidade, 51, ganha agora as luzes dos refletores sob a direção de Aline Goes e Enoque Paulino. O texto coloca em cena um padre - ainda muito jovem - recém-chegado à paróquia; um sacristão e uma beata (ele, esgueirando-se e se escondendo por detrás de uma pseudo castidade, estudando a Biblia, tudo o que mais almeja é poder, substituindo o padre, celebrar a missa; ela, viúva e carente, em permanente estado de ebulição); um prefeito e a sua primeira dama (exemplos em que se alternam lances de oportunismo e hipocrisia social) e, por fim, uma prostituta e um operário. Pronto! Eis aí um cenário propício para fazer girar uma trama minuciosamente armada, um quebra cabeça em que as peças, pouco a pouco, vão se encaixando, formando um divertido, mas não menos delicioso painel social.  Nesse painel, formam-se, exteriorizam-se e se espreitam posturas políticas (quase sempre escusas), interesses sociais (em que se revezam apetites sexuais proibidos: "Adultério é sem-vergonhice?") e reivindicações cidadãs, com direito à menção à greve, inclusive) e, permeando todo esse embrulho, os desejos (ora reprimidos, ora descaradamente expressos). "O que é pecado"? Quais são os seus limites? Ressaltando a ludicidade do texto, citações bíblicas contextualizadas são revisitadas e re-significadas. "Atire a primeira pedra quem nunca pecou". O jogo existencial é simples e se repete desde que o homem é homem: de um lado, o poder (com suas mazelas, com o seu caráter opressivo); de outro, os oprimidos tentando, com os recursos de que dispõem, mudar a roda do destino. A dualidade continua: em lados opostos as exigências da carne se contrapõem às obrigações morais, sociais, religiosas, espirituais. A hipocrisia, moeda de troca vigente em todas as classes sociais, se mantém publicamente à custa de simulacros, de dissimulações.

O texto é primoroso, com algumas tiradas geniais, como, por exemplo, "Pai Supremo, livrai-me desse satanás de porta-seios", fala do sacristão se referindo à tentação representada pela beata. Os resultados obtidos no palco impressionam, conseguindo prender a atenção da assistência. Retornando ao receituário simples que remonta aos primórdios do nosso teatro, um teatro que optou pelo autenticamente brasileiro, nos moldes de Martins Pena. Trata-se, porém, de um Martins Pena, renovado, provocador, moderno, a peça, com humor ágil e inteligente, explorando esquemas fáceis, a peça traz para a cena alguns elementos muito atuais do cenário brasileiro. Referimo-nos, aqui, às estratégias políticas (nem sem politicamente corretas), às preocupações religiosas (remontando a uma teologia libertária). Os fins, parece preconizar o texto, justificam os meios. No final, em meio a inúmeros sustos, criados para manter não só a tensão cômica, mas também a dramática, tudo termina bem.

A representação proposta deliberadamente para a caracterização das personagens, viabilizada pela interpretação dos atores (marcante, forte, precisa), oscila entre o sério e o cômico, evidenciando, por vezes, uma caricatura acentuada. Interpretar é isso: caracterizar, estar no lugar de... convencer como tipo, como pessoa... conferir identidade, autenticidade...

Embora a personagem do padre detenha a maior parte das falas (mérito para o ator que, mesmo com o excesso de texto se sai muito bem) quem rouba a cena é, indubitavelmente, o sacristão (em caracterização primorosa). O elenco todo está muito bem.

Unindo cinema e teatro, o espetáculo, com cerca de duas horas de duração, intersemioticamente, transita entre diversas linguagens: coloca, por exemplo, antecedendo cada um três atos da peça, belas e sugestivas tomadas em vídeo, cujo objetivo é, através de sequências significativas de imagens que extrapolam o meramente ilustrativo, conferir uma outra dimensão social à trama que se desenrola.

O cenário, restringindo-se às necessidades essenciais exigidas pelo texto, é despojado, sem, contudo, deixar de ser objetivo e funcional.

Outro ponto alto do espetáculo, a música de João Paiva (João Urubu) especialmente composta para a apresentação, é bela e pontua a narração brilhantemente.

Enfim, é um espetáculo imperdível. Recomendo!...

 

 

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